Rodada Doha, um fracasso?
Jornal do Brasil. Caderno de Brasília.
2/08/2008
Eiiti Sato
O sentimento
de sucesso e de fracasso em matéria de política
depende da interpretação do observador.
Quando as expectativas são muito grandes, é
inevitável o sentimento de fracasso porque dificilmente
uma negociação termina com uma vitória
“completa” de uma das partes. Na seara política
a noção de certo e errado somente se aplica
em casos muito extremos tais como a invasão de
um país por força militar estrangeira ou
uma violação grave e inequívoca de
direitos humanos. Até mesmo casos de certas transgressões
envolvendo opressão de parcelas inocentes da população
por parte de governos ditatoriais têm sido, com
freqüência, objeto de interpretações
generosas e lenientes. Esse é um ponto de partida
para se interpretar o que ocorreu ao longo da Rodada Doha.
Com efeito,
a questão em jogo eram apenas visões acerca
do comércio internacional e, como tal, sujeitas
a todas as injunções, circunstâncias
e ação das forças políticas
e interesses econômicos em jogo. Em outras palavras,
a Rodada Doha deve ser vista dentro de seus devidos termos
e não como um embate entre o bem e o mal, o certo
e o errado.
Da mesma forma
que se deve presumir que os negociadores brasileiros tinham
boas razões quanto às suas demandas, também
é preciso presumir que a posição
de outras nações não estava fundada
em falsidades e interesses mesquinhos e egoístas.
Em qualquer processo de negociação, essa
deve ser a premissa de todos quantos dela participam,
sejam nações pobres, ricas ou “emergentes”.
Uma negociação comercial não é
uma guerra religiosa onde aqueles que não concordam
com seu credo devem ser tratados como infiéis e
inimigos. Além disso, uma negociação
comercial tem por objeto interesses (lucros, vantagens,
direitos, etc.) que devem ser, em princípio, considerados
como legítimos. Na verdade, não há
como proceder, objetivamente, um julgamento moral a respeito
de interesses. Os interesses do agro-negócio do
Brasil devem ser entendidos como tão legítimos
quanto os interesses dos produtores de trigo dos Estados
Unidos ou dos exportadores de carne da Argentina, ou ainda
dos importadores de arroz e de soja da China.
Nesse quadro,
as rodadas de negociação podem ter como
resultado desde um grande acordo em que todos –
ou a expressiva maioria dos participantes – saiam
plenamente satisfeitos até, no outro extremo, o
resultado pode ser o impasse. O que aconteceu na Rodada
Doha, em resumo, foi esta última possibilidade.
A nós analistas cabe, simplesmente, tentar encontrar
alguma interpretação plausível para
esse resultado. Ou seja, por que não foi possível
chegar a um consenso satisfatório e quais seriam
suas conseqüências? Uma possível resposta
pode ser delineada a partir da segunda parte da questão
posta, isto é, a partir da análise de possíveis
conseqüências do fracasso da Rodada.
Em termos de
desempenho do comércio internacional, os dados
mostram que no futuro próximo não haverá
conseqüência significativa. Desde a década
de 1950 o comércio internacional vem crescendo
de forma consistente tanto em valor quanto em quantidade
e também em termos de expansão da participação
dos países. Entre 1990 e 2005, o crescimento anual
médio do comércio ficou em torno de 6%,
enquanto a produção mundial cresceu a uma
taxa de pouco mais de 2% ao ano. No que se refere especificamente
à agricultura, entre 2001 e 2005, o crescimento
das exportações mundiais foi de 9% ao ano.
Em termos de participação relativa, é
verdade que países como os Estados Unidos e a Alemanha
reduziram sua participação nas exportações
mundiais, mas muitos outros países aumentaram sua
participação no comércio internacional
como o Brasil que passou de 1,0% em 1993 para 1,2% em
2005, sendo a China o caso mais expressivo, ao passar
de 2,5% para 7,5% no período. É importante
notar, no entanto, que mesmo nos casos em que houve uma
redução na participação relativa,
não houve redução nos volumes e nos
valores exportados pelas principais nações
comerciais.
Esses dados,
disponíveis nas publicações e na
página eletrônica da OMC, mostram que, efetivamente,
o comércio internacional não está
em crise e não há uma pressão real
no sentido de que modificações sejam introduzidas
no regime vigente de comércio. Ao contrário,
os últimos acontecimentos mostram que há
uma crescente pressão inflacionária em grande
parte oriunda dos preços agrícolas internacionais,
revelando que a produção não tem
acompanhado o crescimento da demanda internacional. É
possível que esse panorama venha a se alterar no
futuro, todavia, tendo em vista que governantes, tais
como as autoridades presentes na Rodada Doha, regra geral
não trabalham com horizontes de longo prazo, seria
ingênuo esperar que prosperassem argumentos de que
o futuro do comércio depende de negociações
multilaterais que, eventualmente, contrariem interesses
imediatos ou que, simplesmente, são vistos como
pouco relevantes para o momento atual.
Eiiti
Sato é professor do Instituto de Relações
Internacionais da Universidade de Brasília
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